Trabalhar na Europa: Como é a carreira de TI na Dinamarca e Escandinávia

Como é trabalhar na Dinamarca e construir uma carreira de TI na Europa?

Essa é uma questão bastante pertinente para quem trabalha na área de TI e vislumbra uma carreira no exterior. Como muitos perguntam, tanto amigos mais próximos quanto a comunidade de desenvolvedores no Brasil em geral, eu resolvi escrever um pouco sobre a experiência que tive de passar por todo processo de me mudar do Brasil e iniciar uma carreira na Europa na área de TI.

Com o aumento da saída de profissionais do Brasil e com medidas discriminatórias por parte dos EUA, a Europa está cada vez mais nos olhos daqueles que desejam se aventurar com uma carreira no exterior. Vou falar um pouco aqui sobre alguns detalhes na região da Escandinávia e da Europa em geral.

Um outro país que vale destacar também por estar na mira dos brasileiros é o Canadá, que tem vários programas como o Van Hack para captar profissionais.

Em suma, irei abordar os seguintes pontos:

  1. Como cheguei até a Dinamarca
  2. Como é o trabalho na Dinamarca
  3. Como é a vida na Dinamarca
  4. Outros países
  5. Vale a pena viver esta aventura?

Como cheguei até a Dinamarca

Como já venho de sucessivas mudanças – do interior de Minas Gerais para a capital Belo Horizonte e de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro –, vislumbrar uma carreira no exterior foi apenas uma expansão destes pulos de “galho em galho” para atravessar o oceano, até chegar em um dos países nórdicos.

Depois de uma longa carreira na Globo.com (mais de 7 anos), vi colegas de trabalho deixando o país. Durante esse período, oportunidades no exterior também bateram à minha porta. Costumávamos falar que o apartamento em que eu morei no Rio, dividindo com alguns colegas de trabalho, tinha um portal para o exterior, pois a maioria dos que passaram por lá foram para diferentes países, como EUA e Polônia.

Após a ida de um dos amigos que trabalhava na Globo.com para a Dinamarca, uma vaga que se adequava ao meu perfil chegou até mim através dele. Na época, havia iniciado um mestrado em Informática pela PUC-Rio, mas não valeria investir e esperar mais alguns anos para terminá-lo e conciliar o trabalho com um mestrado deste nível (alguns poucos conseguiram). Já estava na hora de enfrentar o Novos Desafios S.A.

Trabalhar na Europa - Carreira de TI na Europa

Copenhague, Dinamarca | Foto: Laura Sette | 7 Cantos do Mundo

É necessário ter diploma?

Para trabalhar na Europa, ter um diploma conta bastante.

Claro que ter formação superior é um diferencial para as empresas. Além disso, em muitos países, é um requisito do próprio órgão de imigração. Tenho muitos exemplos de amigos que vieram sem estarem formados, mas uma graduação, mesmo que seja tecnológica (2 anos e meio), conta na hora de aplicar para o visto em alguns países.

Nos EUA, existe o conceito de experiência de trabalho como alternativa ao diploma (equivalência). No caso da Dinamarca, há diferentes tipos de visto, em que sua experiência de trabalho e o salário que a empresa está disposta a pagar podem deixar a exigência de diploma de lado – falarei mais disso adiante.

As informações sobre ensino superior como requisito para o visto não são muito claras e podem mudar de acordo com as exigências da imigração. Portanto, para garantir, acho válido ter o diploma na área de tecnologia como requisito básico para pensar nesta mudança.

Contratação

Após algumas entrevistas (todas por Skype ou telefone), eu fui contratado.

Esse é um detalhe que vale chamar a atenção. A maioria dos países e empresas não te contratam diretamente do Brasil, fazendo com que você tenha de se deslocar para o país de destino para realizar uma última entrevista. Venho percebendo que a ocorrência desse passo a mais é cada vez menor, e as empresas realizam a contratação de forma remota. E foi assim comigo.

Sendo assim, a minha primeira vez na Europa já foi com mala e cuia.

Apesar do choque da mudança e me sentir sendo jogado na água fria, tive a chance de vir com todo o suporte da empresa. A empresa em questão é a Tradeshift, uma plataforma B2B que está presente em vários países.

É importante ver se a vaga oferece um “relocation package”, o que significa que eles serão responsáveis pela parte burocrática do visto e da mudança. Todo o meu processo foi feito por uma empresa especializada em imigração, que presta este serviço para empresas que desejam contratar alguém do exterior. A empresa terceirizada realizou o processo por mim através de uma procuração.

Isso ajuda bastante quando não conhecemos as peculiaridades do processo em um país desconhecido e é necessário pesquisar e entender como funciona. Com a mudança, já estamos lotados de informações e questões para se preocupar. É bem mais complicado além de tudo isso ainda ter que entender detalhes das questões legais do processo de imigração.

Neste caso, fui muito bem orientado por essa empresa. Basicamente, fui até o consulado e realizei os procedimentos para emissão do visto e, chegando à Dinamarca, eu faria a biometria para enfim ser emitida minha permissão de trabalho.

Permissão de trabalho?

Para trabalhar Dinamarca e nos demais países nórdicos, é necessário que a empresa inicie a candidatura para seu visto. Na verdade, o visto nada mais é que uma permissão de residência ligada ao seu contrato de trabalho (justificada por ele).

Caso você perca seu emprego, sua residência é revogada. Se você decidir mudar de emprego, é necessário se candidatar novamente, iniciando um novo processo de pedido de residência, agora baseado no seu novo trabalho.

Existem algumas categorias em que você precisa se encaixar para se candidatar a uma permissão de trabalho na Dinamarca. Estas são as mais pertinentes para a área de TI:

1. Positive List

A lista positiva indica quais profissões estão em falta na Dinamarca e que, portanto, o governo incentiva a contratação de estrangeiros. A área de TI se encontra nessa lista.

2. Pay Limit Scheme

Emprego com alta remuneração. A empresa contratante afirma que você é um profissional qualificado e receberá um salário alto.

3. Fast Track Scheme

Esse visto é concedido apenas por algumas empresas cadastradas e ligadas ao governo da Dinamarca. Além de estar na Positive List e significar alta remuneração, o visto sob o Fas Track Scheme sai mais rápido e tem algumas outras vantagens.

4. Empreendedor

Um visto ligado ao seu negócio, que será uma empresa na Dinamarca. Esse tipo de permissão envolve provar que você pode permanecer no país por um tempo e que você pode cobrir seus custos.

Como é o trabalho na Dinamarca

Depois de estar fixado no novo país e resolver todas as questões pertinentes à mudança, passamos a considerar o dia a dia de trabalho.

O que mais me chamou atenção foi o balanço entre o trabalho e o lazer. A sua jornada passa a ser de 37 horas semanais como padrão. Bem, parece pouca diferença, mas ela faz muita diferença no dia a dia. Esta diferença é maior ainda quando você sente que a cultura não é baseada em trabalhar como um louco, e o país preza pela qualidade de vida. A cultura para quem tem família também é bastante valorizada.

As leis trabalhistas são mais flexíveis, você tira férias considerando os dias úteis e pode tirar em qualquer quantidade. O padrão é de 5 semanas de férias (alguns acordos coletivos permitem ainda mais tempo), além da possibilidade de férias não pagas, em que há uma livre negociação entre você e seu empregador, sem comprometer seu vínculo empregatício.

Na Dinamarca, há diferentes tipos de empresas, de startups a grandes empresas – como é o caso da Zen Desk e da Trustpilot (essa última foi a empresa em que trabalhei mais recentemente). A Escandinávia também vem sendo palco da ascensão de empresas Fintech, que são startups de tecnologia ligadas a finanças.

Os países nórdicos estão sendo palco de um grande crescimento tecnológico e, em termos de cultura de trabalho, são bastantes flexíveis. Percebo que a cultura de trabalho aqui é bem menos workaholic que nos EUA e em algumas partes do Brasil – que, a meu ver, herdaram o modelo americano.

Há muitas empresas estrangeiras estabelecidas na Dinamarca, e isso torna o ambiente ainda mais dinâmico e multicultural, sendo difícil estabelecer uma cultura-base em muitos casos.

Como é a vida na Dinamarca

Nem só de trabalho vive o homem, não é mesmo? Ao considerar um novo país, mesmo tendo vindo por uma oportunidade de trabalho, temos que levar em conta como é viver neste país. Nisso, a Dinamarca (bem, a Europa) é um prato cheio de pluralidades, mas que em maior ou menor escala tem em comum a qualidade de vida.

 Saiba mais sobre a Dinamarca no blog 7 Cantos do Mundo!

Quando falamos na vida pessoal em um país, temos que considerar também o que é prioridade para cada um, pois para alguns o clima dita o que você acha do país, e para outros, o que vale mais é a infraestrutura. Eu sempre busco o meio termo.

Os diferentes castelos que tem para visitar na Dinamarca e explorar a história de uma cultura que não fez tanto parte dos nossos livros de história. Foto: Alexandre Magno

 Dinamarca, o país mais feliz do mundo?

Em muitos rankings a Dinamarca está sempre entre os países mais felizes do mundo. Claro que essas categorizações não levam em conta fatores mais abstratos, mas realmente o que sinto aqui é estar em um país que na prática e de forma objetiva tem tudo para se considerar tal. Isso se formos levar em conta as seguintes variáveis em questão:

Corrupção

É um dos países com menor taxa de corrupção, o que torna o alto imposto que temos de pagar algo que vemos ser convertido nos serviços que usamos, como transporte e infraestrutura.

Violência

A sensação de tranquilidade aqui é muito grande. Claro que nenhum país é perfeito, mas os índices de violência e roubo aqui são bem mais baixos do que outros países da Europa e fica ainda mais gritante a diferença quando comparadas ao Brasil.

Meio ambiente (Orgânicos, energias renováveis, bicicleta, recicláveis)

O cuidado com o meio ambiente aqui é realmente levado a sério e vejo que está muito à frente até mesmo em relação a outros países da Europa. A Dinamarca, assim como a Suécia, está entre os países com uma taxa de reciclagem muita acima da média, além de ter em torno de 30% da energia eólica, ter o trânsito voltado totalmente para as bicicletas e reaproveitamento até do lixo orgânico de forma eficiente.

Vida ativa, esportes e facilidade, entretenimento

Muitos clubes, públicos e particulares, dão acesso a vários tipos de esportes na cidade, além de ser muito acessível para bicicletas e corredores, pois há diversos parques espalhados pela cidade.

O Metrô de Copenhague é 24/7 e autônomo. Foto: Alexandre Magno

O uso de bikes é também um ponto forte da cidade, e a arquitetura bastante variada, neste caso, como Islands BryggeFoto: Alexandre Magno

As ciclovias de Islands Brygge atravessam o bairro através de passarelas especiais para pedestres e bicicletas. Foto: Alexandre Magno

Foto da atração principal de Copenhague, a pequena Sereia. Foto: Alexandre Magno

Outros países

A Europa como um todo está bastante aberta para profissionais qualificados de TI. Tenho vários amigos vivendo em outros países europeus que também não deixam nada a desejar. Todos têm suas peculiaridades e formas de entrar com maior ou menor trabalho, burocracia ou leis favoráveis a imigrantes, mas que não muda muito das que descrevi aqui em sua base.

Devido à variedade de países e culturas concentradas na Europa, temos países para diversos gostos e necessidades, assim como cultura, que em alguns casos, se aproxima da nossa, como em Portugal. Esse é um destino que pode ser interessante para quem ainda tem barreiras com o inglês, por exemplo. Encontrei muitas dicas de lá no Eurodicas sobre como conseguir um emprego e se mudar para Portugal e outros países da Europa.

E quem deseja outros países nórdicos, dominar a língua inglesa é fundamental. Isso por que dificilmente você vai aprender o dinamarquês, e aqui é um dos países que mais se fala inglês na Europa.

Veja a lista das carreiras em alta nos 15 melhores países para se trabalhar, onde a Dinamarca está incluída, como diversos outros países que citamos aqui. E reforçando o que eu disse, sobre as características do trabalho, a Dinamarca está neste ranking também entre os melhores países para se trabalhar.

Temos também, devido às maravilhas da facilidade de locomoção aqui, pessoas que vivem em um país e trabalham em outro, como é o caso de Malmö, na Suécia, que está a cerca de 20 minutos de trem de Copenhague.

Vista da cidade de Malmo, de onde é possível ir por Copenhague para passar o dia ou até mesmo trabalhar entre os dois países. Foto: Alexandre Magno

Vale a pena viver esta aventura?

Sempre tive pra mim que buscar uma oportunidade no exterior é uma fase na vida quase que obrigatória. Ela independe de amar o Brasil e da situação econômica do país. Muitos estão buscando agora uma saída do país como fuga da situação em que encontra nossa pátria mãe. Para mim, até como brasileiro, morar em outro país irá me tornar um melhor cidadão e nunca mais voltarei ao país com os mesmo olhos.

Esta aventura ainda está sendo escrita, e para muitos pode ser uma dificuldade maior, ou menor, mas nunca é um caminho errado a se seguir ao querer aceitar um desafio desses. Independentemente de se aqui será o destino final ou não, ter passado por essa experiência ultrapassou meus limites do que eu conhecia profissionalmente e pessoalmente.

Considerando o momento, em que estamos passando por várias mudanças na tecnologia, formas de trabalho, novos cargos e um futuro mais integrado, está cada vez mais recorrente morar em outros lugares, sair da zona de conforto. Você sente que é parte desta jornada, muitos lugares no mundo oferecem o espaço para isso como nunca fizeram.

Porém, para que isto seja possível, é necessário também maturidade e conhecimento. No fim, o que vai valer é como você irá enfrentar os passos na prática. Independentemente disso, você seguindo em outro país ou voltando para o Brasil, já deu certo.

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